Neuroimagem por Doppler ultrarrápido · interativo

Por dentro do ultrassom funcional

A imagem por ultrassom funcional (fUSI) infere a atividade cerebral a partir de variações locais do volume sanguíneo cerebral. Para isso, emite ondas planas não focalizadas milhares de vezes por segundo, separa os ecos tênues das hemácias em movimento dos ecos do tecido, dezenas de decibéis mais intensos, e acompanha ao longo do tempo o sinal de Doppler de potência resultante.

Cada painel abaixo executa uma etapa dessa cadeia sobre dados simulados no próprio navegador, terminando com a microscopia de localização por ultrassom, que usa a mesma aquisição para resolver microvasos além do limite de difração. Altere os parâmetros e observe o que cada passo acrescenta e o que custa.

ETAPA 1

Ondas planas e composição coerente

Um equipamento convencional constrói a imagem linha a linha, com feixes focalizados, o que o limita a algumas dezenas de quadros por segundo. A imagem ultrarrápida insonifica todo o campo de uma só vez com uma onda plana não focalizada e reconstrói cada pixel por software (beamforming), a partir dos ecos recebidos em todos os elementos. Uma única transmissão fornece uma imagem completa, porém pobre: sem focalização na transmissão, os lóbulos laterais de cada espalhador distribuem energia por todo o campo.

A composição coerente repete a transmissão em vários ângulos de inclinação e soma as imagens reconstruídas antes da detecção de envelope. O lóbulo principal soma-se em fase entre os ângulos; os lóbulos laterais e o ruído eletrônico, não. Por isso, seu nível relativo cai aproximadamente como 1/√N. O preço é tempo: com frequência de repetição de pulsos (PRF) fixa, N ângulos resultam em uma taxa de quadros compostos de PRF/N.

Observe o cisto anecoico à esquerda da imagem. Com um ângulo, ele se preenche de clutter vindo do speckle vizinho e dos lóbulos laterais em X dos fios brilhantes; com 15 ângulos, aparece quase negro.

Phantom: speckle, seis fios pontuais, um cisto anecoico e uma inclusão hiperecoica. Os lóbulos laterais são modelados com fase dependente do ângulo; PRF fixa em 5,5 kHz.

Sequência de transmissãoθ = 0°
Modo B composto45 dB
1
Ângulos usados
0°
Taxa composta
5500 Hz
Conjunto de 200 quadros
36 ms
Contraste do cisto
dB
ETAPA 2

Separando sangue de tecido

A uma taxa composta próxima de 500 Hz, o equipamento empilha algumas centenas de quadros consecutivos em um conjunto (ensemble). Em cada pixel, o eco é a soma de três sinais: o do tecido, intenso e com movimento lento, acompanhando respiração e pulsação; o do sangue, fraco, mas que se descorrelaciona rapidamente à medida que as hemácias fluem; e o ruído.

Um filtro temporal passa-altas falha quando o fluxo capilar lento e o movimento tecidual compartilham as mesmas frequências. O filtro espaço-temporal por SVD reorganiza o conjunto em uma matriz pixels × tempo e a decompõe. Como o tecido se move de forma coerente em grandes regiões, ele se concentra nas primeiras componentes singulares. O sangue ocupa a porção intermediária do espectro, e o ruído branco, a cauda. Removidas as duas extremidades, a soma da energia restante ao longo do conjunto fornece a imagem de Doppler de potência.

O Doppler de potência é proporcional ao número de espalhadores em movimento no voxel. Trata-se, portanto, de um indicador do volume sanguíneo cerebral, e não de uma medida de velocidade.

Leve o corte de tecido a 0: o mapa se torna uma imagem de speckle do tecido. Acima de 20, os vasos mais lentos começam a desaparecer. Clique em qualquer pixel para ver seus sinais bruto e filtrado.

Fatia coronal simulada de 64 × 48 pixels, 160 quadros a 500 Hz (320 ms). A razão tecido/sangue foi comprimida para visualização; in vivo ela é maior, e a separação, proporcionalmente mais difícil.

Doppler de potência28 dB
Valores singularesescala log
Pixel selecionado…
eco bruto (tecido + sangue + ruído)após filtro SVD, ampliado ×4
8
150
Componentes mantidas
…
Energia removida
…
Vaso / parênquima
…
ETAPA 3

Do volume sanguíneo aos mapas de ativação

A atividade neural aumenta o volume sanguíneo local por meio do acoplamento neurovascular, com latência de um a dois segundos e pico alguns segundos após o início. A fUSI acompanha esse processo gerando uma imagem de Doppler de potência a cada 0,4 s, aproximadamente, e comparando o curso temporal de cada pixel com a resposta esperada, isto é, o curso temporal do estímulo convoluído com um núcleo hemodinâmico.

O painel simula a estimulação das vibrissas em um plano coronal que passa pelo campo de barris do córtex somatossensorial primário (S1BF) e pelo núcleo ventral posteromedial do tálamo (VPM). As respostas são contralaterais. Os blocos têm 5 s de estimulação e 25 s de repouso, após uma linha de base de 20 s.

Selecione Simulado (sham). Nenhuma resposta é simulada; portanto, todo pixel acima do limiar é um falso positivo. Reduza o limiar ou aumente o ruído e observe-os surgir; depois, acrescente tentativas.

Variações de pico simuladas: cerca de 17% em S1BF e 9% em VPM. O ruído inclui deriva lenta e uma flutuação fisiológica compartilhada. A anatomia é esquemática, não um atlas.

Mapa de correlação sobre a vasculaturaE | D
Média das tentativas, pixel selecionado…
CBV relativo, pixel selecionado…
ΔCBV (%)modelo ajustadoestímulo ativo
6
10
0,30
Pixels acima do limiar
…
Fora da resposta real
…
Duração da sessão
…
ETAPA 4 · ALÉM DO LIMITE DE DIFRAÇÃO

Microscopia de localização por ultrassom

A resolução do Doppler de potência é limitada pelo comprimento de onda, cerca de 100 µm a 15 MHz. A microscopia de localização por ultrassom (ULM) supera esse limite do mesmo modo que PALM e STORM o fazem na óptica. Microbolhas de gás injetadas por via intravenosa funcionam como fontes pontuais esparsas no interior dos vasos. Desde que duas bolhas estejam mais afastadas que a função de espalhamento do ponto, o centro de cada uma pode ser estimado com precisão muito maior que a largura de sua imagem, da ordem de poucos micrômetros.

A mesma aquisição ultrarrápida e o mesmo filtro SVD isolam as bolhas em movimento do tecido. Cada quadro contribui com algumas localizações, e o pareamento entre quadros sucessivos fornece trajetórias e velocidades. Acumuladas ao longo de dezenas de milhares de quadros, elas desenham a rede microvascular com resolução da ordem de um décimo do comprimento de onda.

O preço é a esparsidade. Poucas bolhas por quadro produzem posições precisas, mas exigem aquisições longas, em geral de minutos, e não de segundos; muitas bolhas se sobrepõem e geram localizações falsas. A ULM funcional leva essa resolução às respostas evocadas por estímulo, à custa de integrar muitas repetições.

Aumente o número de bolhas para 60 e observe as localizações espúrias se espalharem entre os vasos. Compare os dois vasos separados por cerca de 40 µm, no canto inferior esquerdo: distintos no mapa de ULM, fundidos na imagem limitada por difração.

Campo simulado de 1 × 0,75 mm a 1 kHz. Função de espalhamento do ponto de cerca de 100 × 60 µm (FWHM). Localização por máximos locais com ajuste gaussiano de três pontos; rastreamento pelo vizinho mais próximo entre quadros consecutivos.

Quadro único, filtradolimitado por λ
bolha reallocalização
Densidade ULMpixels de 5 µm
12
Quadros
…
Localizações
…
Erro mediano
…
Espúrias (> 25 µm)
…
LEITURA DO SINAL

O que a fUSI mede, e o que não mede

A cadeia descrita acima torna a fUSI sensível, rápida e portátil. Cada etapa, contudo, carrega um pressuposto que deve ser verificado antes que um mapa seja lido como atividade cerebral.